domingo, 14 de setembro de 2008

Sobre a cegueira e a humanidade

Boquiaberta. Foi assim que eu estava ao final da sessão de “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles. Não li o livro do Saramago, talvez por isso, a minha reação seja um pouco exagerada. Mas o filme me tocou, mexeu comigo de uma forma que há tempos uma fita não mexe. Abalou a minha crença na humanidade.


Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira", do brasileiro Fernando Meirelles


Uma epidemia de cegueira atinge uma cidade. Rapidamente, o desespero toma conta das pessoas e faz brotar um instinto de sobrevivência que muitos de nós ignoramos solenemente, devido à rotina pequeno-burguesa que vivemos. Não se trata de viver, mas de sobreviver, algo muito mais visceral, muito mais próximo dos animais, da selvageria. E como podemos ser pequenos e egoístas quando se trata de defender a nossa própria subsistência.

A personagem de Julianne Moore é a ponta de razão que ainda resta naquela sociedade. Única personagem que ainda enxerga, ela vive um dilema terrível. Ela tem a noção exata do que aquelas pessoas se transformaram e é deliberadamente usada por todos, inclusive seu marido. Para mim, uma cena emblemática é aquela em que ela já não suporta mais a situação e cogita sair para tentar encontrar uma cura, já que foi a única que não foi contaminada, e seu marido a impede argumentado o que seria daquele pequeno grupo sem ela. Que se dane o resto da humanidade, o mais importante era aquelas seis ou sete pessoas permanecerem vivas.

Não se trata de julgar o comportamento daquelas pessoas, mas de imaginar que não vivemos nada de muito diferente hoje. Em quantos momentos nos flagramos pensando em nós mesmo e nem nos lembramos do resto da humanidade. Como são raros gestos de solidariedade. Como a barbárie é eminente, camuflada por alguns códigos do chamado pacto social. O ser humano é complexo, capaz dos atos mais vis e baixos, mas também capaz de sublimar dificuldades e ainda ter esperança. Para mim esta foi a grande mensagem do filme.


Agora preciso ler o livro e rever o filme. Oh, natureza crítica que não me deixa.

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