terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Samba de um minuto

Composição: Rodrigo Maranhão
Interpretação: Roberta Sá

Devagar
Esquece o tempo lá de fora

Devagar

Esqueça a rima que for cara.

Escute o que vou lhe dizer

Um minuto de sua atenção

Com minha dor não se brinca

Já disse que não

Com minha dor não se brinca

Já disse que não.

Devagar, devagar com o andor

Teu santo é de barro e a fonte secou

Já não tens tanta verdade pra dizer

Nem tão pouco mais maldade pra fazer.

E se a dor é de saudade

E a saudade é de matar

Em meu peito a novidade

Vai enfim me libertar.

Devagar...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Réquiem para 2008

O ano de 2008 já poderia ter acabado há alguns dias. Sério, não teria feito a menor diferença. Oh, ano arrastado esse. As coisas pareciam amarradas nesses últimos meses. Foi um ano de muitas idéias, pelo menos para mim. Muitas coisas aconteceram, e já postei aqui alguns dos momentos mais marcantes. Mas já deu... e há tempos.

Algumas das minhas metas para esse ano não foram atingidas. Paciência, sei que as coisas nem sempre saem como a gente planeja. Desde novembro, não houve vento suficiente para navegar. As velas precisaram ser guardadas e a âncora jogada ao mar. Mas esta calmaria teve seu lado bom. Trouxe auto-conhecimento, proporcionou ajustes de rota. Sei que começarei 2009 muito mais segura, e com muito mais garra para correr atrás dos meus planos.

2009 será um ano de ação. As idéias de 2008 deverão se tornar realidade. Pelo menos é o que espero, e farei de tudo para realizar. Comecei o meu réquiem para 2008 há algum tempo...


Cantinho da cultura
Réquiem: missa ou cerimônia solene em homenagem aos mortos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Só uma pequena história de Natal...




Escreveu com a sua letra mais redonda. Não queria correr o risco de mal entendidos. Com toda a idade que o bom velhinho carrega, com certeza ele tem algum problema nas vistas e precisava facilitar o trabalho dele. Disseram que poderia mandar um e-mail. Mas achou mais seguro escrever a sua cartinha, como fazia todos os anos. Vai saber se o tal e-mail não era coisa desses malucos da internet. Podia ser criança, mas não era burra. Não iria arriscar.

Também não confiava nos impostores que ficavam no shopping. Qual a surpresa? Depois dos cinco anos, você acha realmente possível dizer a uma criança que é mesmo o Papai Noel sentado em cada canto da cidade? Que ele usa seus poderes mágicos para se transportar e estar em vários lugares ao mesmo tempo? Uma boa olhadela na barba falsa, na barriga de travesseiro e no “Ho, ho, ho” em diferentes tons para saber que não era a mesma pessoa.

Voltemos. Letra redonda, satisfações sobre notas na escola e bom comportamento com os pais. Achava que realmente merecia a bicicleta que tanto queria. Terminou a carta, pegou um envelope, fechou com um adesivo da Hello Kitty. Pediu ao pai que colocasse no Correio, e que pedisse urgência na entrega, pois a casa do bom velhinho ficava muito longe e sua carta tinha que chegar a tempo.

Os dias se passaram. O grande dia chegou. Vestiu a roupa linda que escolheu com a mãe, no dia anterior. As lojas estavam cheias... será que Papai Noel pega todas essas filas para comprar os presentes e mandar embalar? Será que ele comprava tudo no cartão de crédito, ou levava o dinheiro dentro do grande saco vermelho?? Podia imaginar a cara dele quando chegava a cobrança, a Mamãe Noel gritando, assim como seu pai fazia com a sua mãe, todo mês.

Estava pronta. Comeu depressa, achando que assim o tempo passaria mais rápido. Adorava o vovô, mas ele não poderia deixar a conversa sobre futebol para depois e ir logo embora? O Papai Noel só chegaria depois que a casa estivesse vazia. Desta vez pegaria ele no flagra, já tinha todo o plano. Estava segurando o sono até onde podia. Os últimos convidados estavam se despedindo. Odiava quando a tia gorda apertava sua bochecha, mas desta vez, abriu um grande sorriso, pois significava que a grande hora estava chegando. A casa ficou vazia. Vestiu os pijamas.

Deitou-se na cama e esperou. As pálpebras teimavam, mas não queria dormir. Não podia fechar os olhos, não podia... Quando acordou de manhã, sua bicicleta estava ali, do lado da cama. Como ele fazia aquilo?

Por mais um ano, a magia estava mantida. A infância ainda perduraria por alguns anos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A cegueira by Saramago

Precisava escrever, caso contrário, não conseguiria dormir.

Acabei de ler o romance de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. Já vi o filme do Meirelles. Fui contra meus próprios princípios de nunca assistir a um filme baseado em um romance antes de ler a obra original. Fiz o caminho contrário e não me arrependo.

Ter visto o filme tornou o livro ainda mais interessante. Óbvio, o diretor fez uso da licença poética para que a obra adquirisse sentido numa outra linguagem. Seria muita pretensão achar que poderia transpor para a tela toda a densidade inerente a uma narrativa escrita. Palmas para Meirelles, admiro muito mais o seu trabalho por entender essa diferença e não querer ser mais do que a obra original.

Mas vamos ao livro. Nunca tinha lido Saramago. E isso causa estranheza a qualquer leitor, por mais experiência que tenha. Uma amiga minha, que também tinha acabado de ler o livro, já havia comentado da dificuldade de leitura. Mas Cris, a falta de travessões e aspas faz todo sentido! É esta ausência na separação de frases e pensamentos das personagens que dão ao romance o seu ritmo, que levam o leitor a encarar aquela situação não como algo singular a um ou outro personagem... mas algo que desestruturou a humanidade.

O livro me afetou muito mais do que o filme. A descrição das cenas de estupro não chega nem perto do que foi mostrado (ou velado) na telona. O jogo de claro e escuro de Meirelles ameniza a dureza das palavras de Saramago. Não há demérito nisso. Fico a imaginar o asco e as ânsias de vômito que seriam provocadas no meio da sessão... um filme precisa se vender, e para isso, a platéia deve assisti-lo até o fim.

De resto, Meirelles captou a essência da história. Não vou repetir aqui o que já escrevi em outro post.

Virei fã de Saramago. Encerro o texto com a frase na epígrafe do livro:

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sobre os tontos

A vida dá mesmo muitas voltas. Pena que algumas pessoas nem sempre percebam e simplesmente fiquem tontas sem saber o porquê. O destino por vezes nos dá uma segunda chance para corrigir erros, pedir desculpas e desfazer mágoas. Mas alguns tontos deixam essa oportunidade passar, ou simplesmente metem os pés pelas mãos e se vêem fazendo tudo de errado de novo.

Sou uma pessoa cabeça dura, quem me conhece mais de perto sabe. Se eu acho que estou certa, não mudo a minha opinião com facilidade (na verdade, quase nunca mudo de opinião). Mas se eu me vejo equivocada, se cometo uma injustiça ou faço uma bobagem, não hesito em pedir desculpas. Não espero segunda chance do destino.

Existem pessoas, por outro lado, que podem ter infinitas chances de se desculpar, e nem se dão conta. Existem pessoas que parecem ter prazer em fazer aqueles que gostam delas sofrer, simplesmente porque não sabem o que é gostar de alguém. Não sabem o que é ter respeito e compromisso. Agem por instintos baixos, como animais que só enxergam as suas necessidades imediatas, sejam sensoriais, emocionais ou materiais. Atropelam quem está na frente por satisfação imediata e acabam com qualquer futuro ou relação duradoura.

E não estou falando só de relacionamentos amorosos. Quantas pessoas que você chamava de amigas na verdade só estavam do seu lado por suas posses, ou em busca de status? Quantas pessoas você conhece que tiram vantagem da família, usando a compaixão inerente desses laços? E não adianta querer ajudar essas pessoas. Elas não enxergam que têm problemas, não sentem as voltas que o mundo dá, pois não têm noção de equilíbrio. Precisam cair, se esborrachar, se acharem sozinhas, por vezes mais de uma vez.

Pobres almas. São dignas de pena. Precisam crescer pela indiferença alheia. É inútil qualquer palavra de apoio ou repreensão. Não ouvirão. Não nos cabe carregá-las. Precisam tropeçar pelas próprias pernas para aprender e, finalmente, darem conta das voltas do mundo, deixando a tonteira (ou tontice?) de lado.