domingo, 18 de janeiro de 2009

Quando cheguei lá no Bonfim, minha senhora...

Algo que não se explica. Festa de largo na Bahia, mais especificamente, Lavagem do Bonfim. Fiquei matutando por horas o que escrever sobre essa experiência, e não encontrei muitas palavras.

Quem tem fé, vai a pé, já diz o dito popular, que tem origem na crença de milhares de fiéis que acompanham o cortejo desde a Igreja da Conceição, no Comércio, até a Colina Sagrada, Igreja do Senhor do Bonfim, no bairro que leva o nome do santo. Não cheguei a ir à Igreja da Conceição, mas cheguei bem perto... também não subi a Colina Sagrada, as pernas não agüentaram... mas fiz uma boa parte do trajeto (fui a pé), e vi muitos seguirem o ritual a risca. E é lindo de ver!

Sim, há muito mais de profano do que de sagrado na Lavagem. Festas de camisas cujos freqüentadores nem sabem para que lado fica o Bonfim; partidos e políticos fazendo campanha, aproveitando a oportunidade de estar bem perto do povo (claro, com vários seguranças observando); bebidas, paqueras e tudo mais.

Mas mesmo com seu lado profano, é uma festa que guarda suas tradições. A massa vestida de branco caminha, nem todos chegam ao destino final, mas boa parte sabe onde é a reta final. É uma festa de paz, pouco se ouve falar de confusões. E a cada ano, fiéis renovam a fé no Senhor do Bonfim.

Glória a ti, neste dia de glória...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Existe vida além do axé

E 2009 finalmente começou. Demorei um pouco para escrever, pois o ano começou agitado. Em uma semana, muitas coisas, boas e ruins, aconteceram. Mas como já havia escrito antes, tenho bons pressentimentos para esse ano, que chega sob a proteção de Oxossi e do Sol.

E por falar no astro-rei, estamos na estação em que ele brilha mais forte. Ah, o verão... mais do que isso, ah, o verão em Salvador... A estação mais quente do ano, no sentido literal e metafórico. Parece que a cidade desperta.

Quem conhece Salvador sabe, não dá para comprar as opções culturais com Rio ou São Paulo. Ainda estamos entrando no circuito nacional de turnês, muita coisa ainda passa bem longe daqui, não temos muitos palcos na cidade. Mas estamos melhorando.

Há vida em Salvador fora do axé music. Não que este seja de todo ruim. Como boa geminiana, não tenho problema em passear pelas diversas facetas da cultura baiana. Ontem mesmo, estava eu “quebrando” com o Asa, aê!, no Trivela, em Praia do Forte. E foi muito bacana, antes que alguém comece a torcer o nariz. Mas vamos combinar, não tem como viver só dos ensaios de verão do axé.

Para quem não sabe, a cena rock, heavy e derivados é forte em Salvador. Existem boas opções para se ouvir o gênero no Rio Vermelho. Ainda no Rio Vermelho, para quem gosta de dançar ao som de hits dos anos 80 e 90, uma outra opção é a Borracharia (também chamada de Borrachinha, por uma amiga). Adoro o lugar, em especial, porque não se esbarra com os almofadinhas e as patricinhas da cidade. E o ingresso é bem baratinho...

Numa outra ponta da cidade, pertinho aqui de casa, no Cais Dourado, uma outra opção é a temporada de “Santo de Casa”, da Mariene de Castro. Samba da melhor qualidade. Discípula de Clara Nunes e D. Edith do Prato e outros grandes nomes do gênero, Mariene arrasa num show muito bem produzido, com cenário que lembra as festas populares do Recôncavo. Com um público bem animado, Mariene tem brilhado nas noites de sexta. Um dos pontos altos do show é a sua versão para “Vira”, um dos sucessos do Ney Matogrosso. A galera entra no clima! Para mim, o destaque fica com “Ilha de Maré”, que me transporta às ruas da Cidade Baixa, na Lavagem do Bonfim (tá chegando!). Nada mais propício, já que o Cais fica bem no trajeto do cortejo.

Ah, e eu não poderia deixar de falar da Jam no MAM, que acontece sempre aos sábados, por volta de 18h30, 19h. Só quem já foi sabe que clima fantástico é aquele! É inebriante... A dica é chegar cedo, passear pelo Parque das Esculturas (reabriu!!), ou assistir a um filme na Sala de Arte, ver o sol se por (devo dizer, ver o sol se pondo no MAM, na Baía de Todos os Santos, já é um espetáculo), e depois curtir o jazz.

É verdade que a indústria do Carnaval é pesada na Bahia, mas o lado B de Salvador resiste, reinventa-se e pulsa sempre mais forte. Essas foram algumas das opções que lembrei, mas existem outras, sempre existirão (se alguém tiver uma boa dica a dar, é só postar nos comentários). Nem só de axé vive essa cidade. Nossos ouvidos e cérebros agradecem!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Samba de um minuto

Composição: Rodrigo Maranhão
Interpretação: Roberta Sá

Devagar
Esquece o tempo lá de fora

Devagar

Esqueça a rima que for cara.

Escute o que vou lhe dizer

Um minuto de sua atenção

Com minha dor não se brinca

Já disse que não

Com minha dor não se brinca

Já disse que não.

Devagar, devagar com o andor

Teu santo é de barro e a fonte secou

Já não tens tanta verdade pra dizer

Nem tão pouco mais maldade pra fazer.

E se a dor é de saudade

E a saudade é de matar

Em meu peito a novidade

Vai enfim me libertar.

Devagar...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Réquiem para 2008

O ano de 2008 já poderia ter acabado há alguns dias. Sério, não teria feito a menor diferença. Oh, ano arrastado esse. As coisas pareciam amarradas nesses últimos meses. Foi um ano de muitas idéias, pelo menos para mim. Muitas coisas aconteceram, e já postei aqui alguns dos momentos mais marcantes. Mas já deu... e há tempos.

Algumas das minhas metas para esse ano não foram atingidas. Paciência, sei que as coisas nem sempre saem como a gente planeja. Desde novembro, não houve vento suficiente para navegar. As velas precisaram ser guardadas e a âncora jogada ao mar. Mas esta calmaria teve seu lado bom. Trouxe auto-conhecimento, proporcionou ajustes de rota. Sei que começarei 2009 muito mais segura, e com muito mais garra para correr atrás dos meus planos.

2009 será um ano de ação. As idéias de 2008 deverão se tornar realidade. Pelo menos é o que espero, e farei de tudo para realizar. Comecei o meu réquiem para 2008 há algum tempo...


Cantinho da cultura
Réquiem: missa ou cerimônia solene em homenagem aos mortos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Só uma pequena história de Natal...




Escreveu com a sua letra mais redonda. Não queria correr o risco de mal entendidos. Com toda a idade que o bom velhinho carrega, com certeza ele tem algum problema nas vistas e precisava facilitar o trabalho dele. Disseram que poderia mandar um e-mail. Mas achou mais seguro escrever a sua cartinha, como fazia todos os anos. Vai saber se o tal e-mail não era coisa desses malucos da internet. Podia ser criança, mas não era burra. Não iria arriscar.

Também não confiava nos impostores que ficavam no shopping. Qual a surpresa? Depois dos cinco anos, você acha realmente possível dizer a uma criança que é mesmo o Papai Noel sentado em cada canto da cidade? Que ele usa seus poderes mágicos para se transportar e estar em vários lugares ao mesmo tempo? Uma boa olhadela na barba falsa, na barriga de travesseiro e no “Ho, ho, ho” em diferentes tons para saber que não era a mesma pessoa.

Voltemos. Letra redonda, satisfações sobre notas na escola e bom comportamento com os pais. Achava que realmente merecia a bicicleta que tanto queria. Terminou a carta, pegou um envelope, fechou com um adesivo da Hello Kitty. Pediu ao pai que colocasse no Correio, e que pedisse urgência na entrega, pois a casa do bom velhinho ficava muito longe e sua carta tinha que chegar a tempo.

Os dias se passaram. O grande dia chegou. Vestiu a roupa linda que escolheu com a mãe, no dia anterior. As lojas estavam cheias... será que Papai Noel pega todas essas filas para comprar os presentes e mandar embalar? Será que ele comprava tudo no cartão de crédito, ou levava o dinheiro dentro do grande saco vermelho?? Podia imaginar a cara dele quando chegava a cobrança, a Mamãe Noel gritando, assim como seu pai fazia com a sua mãe, todo mês.

Estava pronta. Comeu depressa, achando que assim o tempo passaria mais rápido. Adorava o vovô, mas ele não poderia deixar a conversa sobre futebol para depois e ir logo embora? O Papai Noel só chegaria depois que a casa estivesse vazia. Desta vez pegaria ele no flagra, já tinha todo o plano. Estava segurando o sono até onde podia. Os últimos convidados estavam se despedindo. Odiava quando a tia gorda apertava sua bochecha, mas desta vez, abriu um grande sorriso, pois significava que a grande hora estava chegando. A casa ficou vazia. Vestiu os pijamas.

Deitou-se na cama e esperou. As pálpebras teimavam, mas não queria dormir. Não podia fechar os olhos, não podia... Quando acordou de manhã, sua bicicleta estava ali, do lado da cama. Como ele fazia aquilo?

Por mais um ano, a magia estava mantida. A infância ainda perduraria por alguns anos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A cegueira by Saramago

Precisava escrever, caso contrário, não conseguiria dormir.

Acabei de ler o romance de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. Já vi o filme do Meirelles. Fui contra meus próprios princípios de nunca assistir a um filme baseado em um romance antes de ler a obra original. Fiz o caminho contrário e não me arrependo.

Ter visto o filme tornou o livro ainda mais interessante. Óbvio, o diretor fez uso da licença poética para que a obra adquirisse sentido numa outra linguagem. Seria muita pretensão achar que poderia transpor para a tela toda a densidade inerente a uma narrativa escrita. Palmas para Meirelles, admiro muito mais o seu trabalho por entender essa diferença e não querer ser mais do que a obra original.

Mas vamos ao livro. Nunca tinha lido Saramago. E isso causa estranheza a qualquer leitor, por mais experiência que tenha. Uma amiga minha, que também tinha acabado de ler o livro, já havia comentado da dificuldade de leitura. Mas Cris, a falta de travessões e aspas faz todo sentido! É esta ausência na separação de frases e pensamentos das personagens que dão ao romance o seu ritmo, que levam o leitor a encarar aquela situação não como algo singular a um ou outro personagem... mas algo que desestruturou a humanidade.

O livro me afetou muito mais do que o filme. A descrição das cenas de estupro não chega nem perto do que foi mostrado (ou velado) na telona. O jogo de claro e escuro de Meirelles ameniza a dureza das palavras de Saramago. Não há demérito nisso. Fico a imaginar o asco e as ânsias de vômito que seriam provocadas no meio da sessão... um filme precisa se vender, e para isso, a platéia deve assisti-lo até o fim.

De resto, Meirelles captou a essência da história. Não vou repetir aqui o que já escrevi em outro post.

Virei fã de Saramago. Encerro o texto com a frase na epígrafe do livro:

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sobre os tontos

A vida dá mesmo muitas voltas. Pena que algumas pessoas nem sempre percebam e simplesmente fiquem tontas sem saber o porquê. O destino por vezes nos dá uma segunda chance para corrigir erros, pedir desculpas e desfazer mágoas. Mas alguns tontos deixam essa oportunidade passar, ou simplesmente metem os pés pelas mãos e se vêem fazendo tudo de errado de novo.

Sou uma pessoa cabeça dura, quem me conhece mais de perto sabe. Se eu acho que estou certa, não mudo a minha opinião com facilidade (na verdade, quase nunca mudo de opinião). Mas se eu me vejo equivocada, se cometo uma injustiça ou faço uma bobagem, não hesito em pedir desculpas. Não espero segunda chance do destino.

Existem pessoas, por outro lado, que podem ter infinitas chances de se desculpar, e nem se dão conta. Existem pessoas que parecem ter prazer em fazer aqueles que gostam delas sofrer, simplesmente porque não sabem o que é gostar de alguém. Não sabem o que é ter respeito e compromisso. Agem por instintos baixos, como animais que só enxergam as suas necessidades imediatas, sejam sensoriais, emocionais ou materiais. Atropelam quem está na frente por satisfação imediata e acabam com qualquer futuro ou relação duradoura.

E não estou falando só de relacionamentos amorosos. Quantas pessoas que você chamava de amigas na verdade só estavam do seu lado por suas posses, ou em busca de status? Quantas pessoas você conhece que tiram vantagem da família, usando a compaixão inerente desses laços? E não adianta querer ajudar essas pessoas. Elas não enxergam que têm problemas, não sentem as voltas que o mundo dá, pois não têm noção de equilíbrio. Precisam cair, se esborrachar, se acharem sozinhas, por vezes mais de uma vez.

Pobres almas. São dignas de pena. Precisam crescer pela indiferença alheia. É inútil qualquer palavra de apoio ou repreensão. Não ouvirão. Não nos cabe carregá-las. Precisam tropeçar pelas próprias pernas para aprender e, finalmente, darem conta das voltas do mundo, deixando a tonteira (ou tontice?) de lado.