sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Resposta ao Tempo

(Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos, Interpretação: Nana Caymmi)

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Virar a página


Sabe aquela sensação de que você, finalmente, conseguiu virar uma página de sua vida? Encarar uma situação da qual você parecia fugir a tempos e perceber que aquele medo que você alimentava já não existe mais? Saiu de fininho e você nem se deu conta, pois evitava encará-lo.

Encarei. Não havia medo, não havia raiva, não havia mágoas. Também não havia amor, paixão, ou qualquer sentimento extremo. Ficou o carinho, um pouco de preocupação, talvez. Risos trocados, algumas idéias em comum. Algumas divergências, caminhos voltados para direções diferentes.

A vida por vezes nos prega boas peças. Mas também nos desafia a recomeçar. Proporciona oportunidades de nos conhecermos melhor, de ter a noção de nossos limites. Mostra que não é possível mudar ninguém, por mais que a gente se esforce; é guerra perdida. Cada um escolhe seu caminho, faz suas escolhas, que por vezes podem nos magoar. Mas será que fazem por mal? Quantas vezes também podemos magoar quem está do nosso lado, com as nossas escolhas?

Não há o que fazer, escolhemos a direção e precisamos seguir em frente. É a vida. As páginas precisam ser viradas, para que a história continue sem tropeços.

domingo, 9 de novembro de 2008

Girassol

"No coração de quem faz a guerra nascerá
Uma flor amarela
Como um girassol"

Girassol, Cidade Negra




Voltada para a vida eu estou, como um girassol que está sempre voltado para o sol. Às vezes os dias amanhecem tristonhos, assim como um dia nublado, em que o sol aparece apenas entre as nuvens. Mas eu sei que o sol está lá, assim como o girassol, que por força da natureza, está sempre voltado para ele. Terei sempre novos dias para viver, novas chances para buscar momentos felizes.

Desabrochei para a vida, assim como o girassol do meu jardim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Change we need

"A mudança chegou à América"
Barack Obama, em seu discurso em Chicago, após o resultado das eleições




Apegado ao lema da mudança necessária, Barack Obama, afro-descendente e filho de mulçumano, conquistou a presidência da maior potência mundial. Mesmo para quem não goste os EUA ainda são a grande potência mundial; é só ver o estrago que o mundo tem vivido nos últimos meses por conta das dívidas do país. Nunca ouvi dizer que as dívidas da Nigéria causassem qualquer cócega em Wall Street.

A mudança proclamada por Obama já era esperada há muito mais tempo, e não só nos EUA. Obama já estava eleito por todos os países do mundo, antes mesmo do início das eleições norte-americanas. Para o mundo, ele se tornou símbolo de esperança.

Eu torci por Obama, mas tenho alguns medos. Medo de que tudo isso não passe de uma grande ilusão. Medo de que ele seja assassinado por algum lunático atrás de notoriedade.

Todos esperam dias melhores. Estou torcendo para que eles cheguem mesmo...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bye, bye, 2008

Faltam 60 dias para que 2008 se despeça e ceda seu lugar para 2009. Para mim, foi um ano intenso. Já comentei com algumas pessoas que ele me valeu por cinco anos, de tanta coisa que me aconteceu.

Foi um ano de fechamento de ciclos e de recomeços. Ano para colocar pontos finais em histórias que insistiam em ter reticências. Ano de grandes decepções, mas um ano também de muitas lições.

Conheci pessoas muito bacanas, criei novos laços, passei por novas experiências, deparei com sentimentos novos. Foi um ano de descobertas, de ultrapassar limites. Um ano para conhecer os meus limites, acima de tudo, e descobrir meus desejos e vontades. E mais importante, de ter certeza do que eu não quero para a minha vida e fazer escolhas conscientes.

Não me arrependo de nenhuma atitude tomada ou palavra dita. Pedi desculpas quando magoei alguém; não ouvi desculpas quando me magoaram. Aprendi que não se pode exigir de outra pessoa aquilo que ela não pode ser. Que cabe a nós aceitar ou cair fora, antes de cair do precipício. Estive à beira dele, cheguei a me ferir tentando me segurar, e consegui voltar a tempo. E que paisagem bonita eu encontrei neste retorno!

Depressão? Claro, cruzei com ela este ano também. Mas não nos tornamos amigas íntimas. Com toda delicadeza, pedi que se retirasse, pois não havia espaço para ela em minha vida. Tinha mais coisas com as quais me ocupar. Nossa, e como me ocupei.

O trabalho me revigorou este ano. Novas empreitadas, novos desafios. Minha cama sentiu muita falta de mim este ano. Por vezes consegui dormir melhor num hotel do que em casa. Mas valeu a pena cada ausência. Apesar da saudade das pessoas queridas, pude crescer profissionalmente e obter reconhecimento de onde nem esperava.

Este também foi o ano dos amigos. Fiz novos “amigos de infância”. Reforcei laços que a rotina por pouco não desfez. Recebi deles o conforto que precisava para continuar a batalha. Ouvi sermões, recebi carinho, partilhei momentos alegres. Vi também algumas pessoas queridas irem embora, pois precisavam seguir suas vidas em outros lugares, longe de Salvador. Ficou a saudade e a torcida para que encontrassem a felicidade que buscavam. Os que ficaram tornaram-se ainda mais importantes. Estejam longe ou aqui pertinho, sou grata a cada um deles por fazerem parte da minha vida.

E o ano ainda não acabou. Em 60 dias, muita coisa pode e vai acontecer, com toda certeza. Mudanças ainda estão por vir e já estou me preparando para elas. Minha natureza inconstante não me deixará quieta. Antes do ano acabar, farei um novo balanço, e provavelmente chegarei a conclusão que 2008 terá sido um marco histórico. E apesar de tudo, vai deixar saudade...

domingo, 26 de outubro de 2008

Trampolim

"Que tipo de piscina terá embaixo deste trampolim?
Que pulo que eu vou ter que dar para não me ferir?
Porque acordar sem você é ficar cego no amanhecer
É assistir o fim do mundo antes de escurecer
E eu no meio disso tudo, sem saber,
Se já estamos no início do que vamos ser"
(Trampolim – Paulinho Moska)


Pular ou não pular do trampolim? Arriscar e levar alguns arranhões (ou uma bela queda, a depender da altura) ou viver de “será?” e “e se”? Eu sempre acabo pulando, apesar dos protestos da razão. Para falar a verdade, às vezes pulo impulsionada por ela, pois no fundo, odeio lidar com hipóteses. Prefiro sempre fatos, sim ou não; não sei viver de talvez.

A piscina em si não me dá medo. Por vezes, ela está vazia, ou a água está muito fria. Não há muito que fazer nessas horas, a não ser procurar a escada e uma toalha seca para consolar. Mas quando a água está morna, os minutos ali se transformam em momentos mágicos, e chego a me perguntar por que demorei tanto para pular.

Prefiro sempre me arrepender por coisas que fiz, do que sentir saudades daquilo que não vivi. Experimentar é da minha natureza. Sou geminiana e não seria eu sem essa curiosidade, sem esta ansiedade por viver. Não saberia passar pela vida sem ir ao limite do que ela pode me oferecer, mesmo sabendo que posso não alcançar, mesmo sabendo que nem sempre a gente ganha.

Sempre existirão trampolins para um próximo pulo.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Café, doces e cabelos brancos

Os cabelos brancos não deixavam mentir a idade. O corpo curvado já não agüentava os mesmos trancos da juventude. Estava cansado, mas não podia parar. O salário pago pelo INSS não era suficiente para todos os remédios de que precisava. Ironia essa do destino: deveria repousar para amenizar os efeitos da doença, mas se seguisse os conselhos dos médicos, morreria em dois dias, pois não teria como pagar pela medicação e consultas.

Com seu carrinho de café, percorria boa parte da cidade. Tinha que sair de casa cedo, para pegar um coletivo vazio, de forma que seu carrinho não atrapalhasse a passagem das pessoas no corredor do ônibus. Precisava estar a postos no momento em que aqueles da ativa estavam chegando a seus locais de trabalho. Lucrava com a correria deles.

Seu café (ou chocolate, o que preferissem) era uma pequena pausa antes de mergulharem na rotina que levavam. Sentia que levava conforto para aquelas pessoas a cada copo servido. Reconfortava-se também com esse sentimento, sentia-se útil, apesar de sempre dizerem que, depois de certa idade, os homens deveriam se conformar com sua inutilidade. Ingênuos; não sabem o que é envelhecer num mundo que é pensado para os jovens. Suas costas doem, mas não pode parar de servir seus fregueses.

Almoçava às 11h. Um prato feito, a moça sempre chegava ao mesmo horário, já com a sua marmita em separado. Quando tinha lucro, pagava no mesmo dia; mas sabia que podia contar com o velho fiado. Contava também com a piedade que as pessoas costumam ter com os idosos. Frango, arroz, feijão e farofinha. Hum... Lembrou dos almoços de domingo, quando sua amada esposa ainda era viva. Uma lágrima caiu pelo canto do rosto. Apenas uma; não tinha outras. O tempo vai secando algumas coisas por dentro.

Quando o sentimento de solidão o alcançava, já era hora do próximo turno, pós-almoço. Desta vez, os doces também faziam sucesso, em parceria com o cafezinho, ainda conservado pela garrafa térmica. Seu carrinho tinha vários compartimentos. Não tinha som, como alguns modernosos que andam por aí, mas tinha seu charme. Conversas furtivas, sempre alguém reclamando da vida, do excesso de trabalho, da ausência do companheiro. Dava conselhos, quase sempre ignorados. Um ou outro ainda o olhava no olho e agradecia. Esse contato renovava as suas esperanças; ele existia para alguém. Sabia que estaria ali amanhã.

Fim de tarde. Sentado no ponto de ônibus, aguarda pacientemente aquele que passar mais vazio. Não conseguiria entrar com seu material de trabalho no horário de pico, teria que aguardar. Já esperou por tanto tempo na vida, deixou tantos ônibus passarem, mas sempre chegava a seu destino. Seus olhos estavam perdidos. Tomou o resto de chocolate que estava na garrafa térmica. Recordava dos tempos em que chegava em casa e era recebido pelos filhos pequenos, saudosos de sua presença, ansiosos por sua proteção.

Hoje tem que enfrentar uma casa vazia e uma cama fria. Sabia que aquilo não iria durar muito. Pedia que acabasse logo, em algumas noites. Viveu o que tinha que viver, fez sua parte nesse mundo de meu Deus. Não era ninguém; apenas o tio que estava sempre com um café fresco a oferecer. Encolheu-se na cama como criança, sentia mais frio do que o normal. Sonhou com a esposa, estavam tão felizes... teve uma noite calma, os ossos não doíam tanto.

Seu semblante estava sereno quando seu filho o encontrou...