segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Café, doces e cabelos brancos

Os cabelos brancos não deixavam mentir a idade. O corpo curvado já não agüentava os mesmos trancos da juventude. Estava cansado, mas não podia parar. O salário pago pelo INSS não era suficiente para todos os remédios de que precisava. Ironia essa do destino: deveria repousar para amenizar os efeitos da doença, mas se seguisse os conselhos dos médicos, morreria em dois dias, pois não teria como pagar pela medicação e consultas.

Com seu carrinho de café, percorria boa parte da cidade. Tinha que sair de casa cedo, para pegar um coletivo vazio, de forma que seu carrinho não atrapalhasse a passagem das pessoas no corredor do ônibus. Precisava estar a postos no momento em que aqueles da ativa estavam chegando a seus locais de trabalho. Lucrava com a correria deles.

Seu café (ou chocolate, o que preferissem) era uma pequena pausa antes de mergulharem na rotina que levavam. Sentia que levava conforto para aquelas pessoas a cada copo servido. Reconfortava-se também com esse sentimento, sentia-se útil, apesar de sempre dizerem que, depois de certa idade, os homens deveriam se conformar com sua inutilidade. Ingênuos; não sabem o que é envelhecer num mundo que é pensado para os jovens. Suas costas doem, mas não pode parar de servir seus fregueses.

Almoçava às 11h. Um prato feito, a moça sempre chegava ao mesmo horário, já com a sua marmita em separado. Quando tinha lucro, pagava no mesmo dia; mas sabia que podia contar com o velho fiado. Contava também com a piedade que as pessoas costumam ter com os idosos. Frango, arroz, feijão e farofinha. Hum... Lembrou dos almoços de domingo, quando sua amada esposa ainda era viva. Uma lágrima caiu pelo canto do rosto. Apenas uma; não tinha outras. O tempo vai secando algumas coisas por dentro.

Quando o sentimento de solidão o alcançava, já era hora do próximo turno, pós-almoço. Desta vez, os doces também faziam sucesso, em parceria com o cafezinho, ainda conservado pela garrafa térmica. Seu carrinho tinha vários compartimentos. Não tinha som, como alguns modernosos que andam por aí, mas tinha seu charme. Conversas furtivas, sempre alguém reclamando da vida, do excesso de trabalho, da ausência do companheiro. Dava conselhos, quase sempre ignorados. Um ou outro ainda o olhava no olho e agradecia. Esse contato renovava as suas esperanças; ele existia para alguém. Sabia que estaria ali amanhã.

Fim de tarde. Sentado no ponto de ônibus, aguarda pacientemente aquele que passar mais vazio. Não conseguiria entrar com seu material de trabalho no horário de pico, teria que aguardar. Já esperou por tanto tempo na vida, deixou tantos ônibus passarem, mas sempre chegava a seu destino. Seus olhos estavam perdidos. Tomou o resto de chocolate que estava na garrafa térmica. Recordava dos tempos em que chegava em casa e era recebido pelos filhos pequenos, saudosos de sua presença, ansiosos por sua proteção.

Hoje tem que enfrentar uma casa vazia e uma cama fria. Sabia que aquilo não iria durar muito. Pedia que acabasse logo, em algumas noites. Viveu o que tinha que viver, fez sua parte nesse mundo de meu Deus. Não era ninguém; apenas o tio que estava sempre com um café fresco a oferecer. Encolheu-se na cama como criança, sentia mais frio do que o normal. Sonhou com a esposa, estavam tão felizes... teve uma noite calma, os ossos não doíam tanto.

Seu semblante estava sereno quando seu filho o encontrou...

3 comentários:

Unknown disse...

A vida tem que ser uma mescla de alegria e sofrimento: sem a primeira perde o gosto; sem o segundo, o significado.

O desafio é dosar as duas, de modo a não desperdiçá-la e nem querer jogá-la fora.

Excelente texto. Tanto pelo convite à reflexão quanto pela tangibilidade das cenas.

Abraço, minha amiga! Continue o bom trabalho.

o Nobre disse...

Belo conto. Pensei no Prata. Vou ver se escrevo um também. Mas quero mais uma coisa animada, pora cima. Já tenho falado de tantas mazelas no meu blog. Mas algumas sempre dão esperaçana, assim como o seu conto deu. O negócio é não desistir.

esperançoso disse...

Gostei muito da sua postagem. Reflete a realidade de muitos seres humanos existentes.Na qualidade de "idoso" fico a refletir e imaginar!