quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bye, bye, 2008

Faltam 60 dias para que 2008 se despeça e ceda seu lugar para 2009. Para mim, foi um ano intenso. Já comentei com algumas pessoas que ele me valeu por cinco anos, de tanta coisa que me aconteceu.

Foi um ano de fechamento de ciclos e de recomeços. Ano para colocar pontos finais em histórias que insistiam em ter reticências. Ano de grandes decepções, mas um ano também de muitas lições.

Conheci pessoas muito bacanas, criei novos laços, passei por novas experiências, deparei com sentimentos novos. Foi um ano de descobertas, de ultrapassar limites. Um ano para conhecer os meus limites, acima de tudo, e descobrir meus desejos e vontades. E mais importante, de ter certeza do que eu não quero para a minha vida e fazer escolhas conscientes.

Não me arrependo de nenhuma atitude tomada ou palavra dita. Pedi desculpas quando magoei alguém; não ouvi desculpas quando me magoaram. Aprendi que não se pode exigir de outra pessoa aquilo que ela não pode ser. Que cabe a nós aceitar ou cair fora, antes de cair do precipício. Estive à beira dele, cheguei a me ferir tentando me segurar, e consegui voltar a tempo. E que paisagem bonita eu encontrei neste retorno!

Depressão? Claro, cruzei com ela este ano também. Mas não nos tornamos amigas íntimas. Com toda delicadeza, pedi que se retirasse, pois não havia espaço para ela em minha vida. Tinha mais coisas com as quais me ocupar. Nossa, e como me ocupei.

O trabalho me revigorou este ano. Novas empreitadas, novos desafios. Minha cama sentiu muita falta de mim este ano. Por vezes consegui dormir melhor num hotel do que em casa. Mas valeu a pena cada ausência. Apesar da saudade das pessoas queridas, pude crescer profissionalmente e obter reconhecimento de onde nem esperava.

Este também foi o ano dos amigos. Fiz novos “amigos de infância”. Reforcei laços que a rotina por pouco não desfez. Recebi deles o conforto que precisava para continuar a batalha. Ouvi sermões, recebi carinho, partilhei momentos alegres. Vi também algumas pessoas queridas irem embora, pois precisavam seguir suas vidas em outros lugares, longe de Salvador. Ficou a saudade e a torcida para que encontrassem a felicidade que buscavam. Os que ficaram tornaram-se ainda mais importantes. Estejam longe ou aqui pertinho, sou grata a cada um deles por fazerem parte da minha vida.

E o ano ainda não acabou. Em 60 dias, muita coisa pode e vai acontecer, com toda certeza. Mudanças ainda estão por vir e já estou me preparando para elas. Minha natureza inconstante não me deixará quieta. Antes do ano acabar, farei um novo balanço, e provavelmente chegarei a conclusão que 2008 terá sido um marco histórico. E apesar de tudo, vai deixar saudade...

domingo, 26 de outubro de 2008

Trampolim

"Que tipo de piscina terá embaixo deste trampolim?
Que pulo que eu vou ter que dar para não me ferir?
Porque acordar sem você é ficar cego no amanhecer
É assistir o fim do mundo antes de escurecer
E eu no meio disso tudo, sem saber,
Se já estamos no início do que vamos ser"
(Trampolim – Paulinho Moska)


Pular ou não pular do trampolim? Arriscar e levar alguns arranhões (ou uma bela queda, a depender da altura) ou viver de “será?” e “e se”? Eu sempre acabo pulando, apesar dos protestos da razão. Para falar a verdade, às vezes pulo impulsionada por ela, pois no fundo, odeio lidar com hipóteses. Prefiro sempre fatos, sim ou não; não sei viver de talvez.

A piscina em si não me dá medo. Por vezes, ela está vazia, ou a água está muito fria. Não há muito que fazer nessas horas, a não ser procurar a escada e uma toalha seca para consolar. Mas quando a água está morna, os minutos ali se transformam em momentos mágicos, e chego a me perguntar por que demorei tanto para pular.

Prefiro sempre me arrepender por coisas que fiz, do que sentir saudades daquilo que não vivi. Experimentar é da minha natureza. Sou geminiana e não seria eu sem essa curiosidade, sem esta ansiedade por viver. Não saberia passar pela vida sem ir ao limite do que ela pode me oferecer, mesmo sabendo que posso não alcançar, mesmo sabendo que nem sempre a gente ganha.

Sempre existirão trampolins para um próximo pulo.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Café, doces e cabelos brancos

Os cabelos brancos não deixavam mentir a idade. O corpo curvado já não agüentava os mesmos trancos da juventude. Estava cansado, mas não podia parar. O salário pago pelo INSS não era suficiente para todos os remédios de que precisava. Ironia essa do destino: deveria repousar para amenizar os efeitos da doença, mas se seguisse os conselhos dos médicos, morreria em dois dias, pois não teria como pagar pela medicação e consultas.

Com seu carrinho de café, percorria boa parte da cidade. Tinha que sair de casa cedo, para pegar um coletivo vazio, de forma que seu carrinho não atrapalhasse a passagem das pessoas no corredor do ônibus. Precisava estar a postos no momento em que aqueles da ativa estavam chegando a seus locais de trabalho. Lucrava com a correria deles.

Seu café (ou chocolate, o que preferissem) era uma pequena pausa antes de mergulharem na rotina que levavam. Sentia que levava conforto para aquelas pessoas a cada copo servido. Reconfortava-se também com esse sentimento, sentia-se útil, apesar de sempre dizerem que, depois de certa idade, os homens deveriam se conformar com sua inutilidade. Ingênuos; não sabem o que é envelhecer num mundo que é pensado para os jovens. Suas costas doem, mas não pode parar de servir seus fregueses.

Almoçava às 11h. Um prato feito, a moça sempre chegava ao mesmo horário, já com a sua marmita em separado. Quando tinha lucro, pagava no mesmo dia; mas sabia que podia contar com o velho fiado. Contava também com a piedade que as pessoas costumam ter com os idosos. Frango, arroz, feijão e farofinha. Hum... Lembrou dos almoços de domingo, quando sua amada esposa ainda era viva. Uma lágrima caiu pelo canto do rosto. Apenas uma; não tinha outras. O tempo vai secando algumas coisas por dentro.

Quando o sentimento de solidão o alcançava, já era hora do próximo turno, pós-almoço. Desta vez, os doces também faziam sucesso, em parceria com o cafezinho, ainda conservado pela garrafa térmica. Seu carrinho tinha vários compartimentos. Não tinha som, como alguns modernosos que andam por aí, mas tinha seu charme. Conversas furtivas, sempre alguém reclamando da vida, do excesso de trabalho, da ausência do companheiro. Dava conselhos, quase sempre ignorados. Um ou outro ainda o olhava no olho e agradecia. Esse contato renovava as suas esperanças; ele existia para alguém. Sabia que estaria ali amanhã.

Fim de tarde. Sentado no ponto de ônibus, aguarda pacientemente aquele que passar mais vazio. Não conseguiria entrar com seu material de trabalho no horário de pico, teria que aguardar. Já esperou por tanto tempo na vida, deixou tantos ônibus passarem, mas sempre chegava a seu destino. Seus olhos estavam perdidos. Tomou o resto de chocolate que estava na garrafa térmica. Recordava dos tempos em que chegava em casa e era recebido pelos filhos pequenos, saudosos de sua presença, ansiosos por sua proteção.

Hoje tem que enfrentar uma casa vazia e uma cama fria. Sabia que aquilo não iria durar muito. Pedia que acabasse logo, em algumas noites. Viveu o que tinha que viver, fez sua parte nesse mundo de meu Deus. Não era ninguém; apenas o tio que estava sempre com um café fresco a oferecer. Encolheu-se na cama como criança, sentia mais frio do que o normal. Sonhou com a esposa, estavam tão felizes... teve uma noite calma, os ossos não doíam tanto.

Seu semblante estava sereno quando seu filho o encontrou...

domingo, 19 de outubro de 2008

Chico Buarque é o "cara"

Quem gosta do Chico Buarque, levante a mão. Música para toda hora, todos os momentos. Posto aqui uma das que mais gosto.



Tanto Amar

Chico Buarque

Amo tanto e de tanto amar acho que ela é bonita

Tem um olho sempre a boiar e outro que agita
Tem um olho que não está, meus olhares evita
E outro olho a me arregalar sua pepita
A metade do seu olhar está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar na bodeguita
Se os seus olhos eu for cantar, um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar toda a pintura
Ela pode rodopiar e mudar de figura
A Paloma do seu mirar vira miúra
É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar ou faroleiro
Amo tanto e de tanto amar acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar e outro me fita
Suas pernas vão me enroscar num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar no infinito
Amo tanto e de tanto amar em Manágua temos um "chico"
Já pensamos em nos casar em "Puerto" Rico

A juventude e o desespero

Para onde caminha o nosso mundo? Estou em São Paulo esta semana, participando de um encontro sobre Comunicação e Sustentabilidade. Na cidade de concreto, um assunto domina todas as conversas: o seqüestro de duas adolescentes por um outro jovem, ex-namorado de uma das meninas. Saldo da operação policial: o cara preso e as duas meninas feridas, uma delas correndo risco de morrer. (Quando escrevi esse texto, na sexta, 17 de outubro, Eloá ainda estava em coma. Ontem a noite foi declarada a sua morte).

O que passa na cabeça dessa juventude? Às vezes me acho um ponto fora da curva. Ainda sou jovem, tenho 26 anos. Há pouco tempo, saia da adolescência. Tive meus namoricos, meus arroubos, sofri por paixonites, fiz bobagens, discordava sempre dos meus pais... mas nada que colocasse a vida de alguém em risco, ou a minha própria vida em risco. Que desespero é esse desta geração?

Ansiedade, agressividade e pressa são marcas da juventude. Mas parece faltar rumo para esta geração e também limites. Acusar pais de negligência me parece clichê. Minha mãe sempre trabalhou fora, por um tempo em esquema de plantão. Sou filha de pais separados, ou seja, fruto de um casamento mal-sucedido. Meu pai nunca foi um exemplo de presença. Não vou dizer que não tive nenhum trauma, que não sofri por isso ou que não tenho minhas mágoas. Mas nem por isso sai por aí me afogando em drogas, ou desafiando as leis para me auto-afirmar.

E conheço pessoas que tiveram pais muito mais presentes que os meus, que tiveram muito mais oportunidades do que eu tive e que jogaram tudo fora. Seja por rebeldia, ou simplesmente para afastar o “tédio”. Também conheço famílias que não têm recursos, mas nem por isso deixaram de criar seus filhos dentro de princípios éticos. A natureza humana é mesmo imprevisível. O que nos leva a atos de tanta violência, a esse sentimento de autodestruição, essa vontade de atropelar a todos que passam em nosso caminho? Falta de objetivo, falta de sentimentos mais profundos?

Não tenho respostas. Apenas reflito e ainda me choco com esse tipo de situação. Espero me chocar sempre; sinal de que não perdi minha sanidade.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pensamentos de anjo



Aqui e acolá, asas batendo. De nuvem em nuvem, presta atenção no movimento que segue nas ruas. Com sua pequena harpa em punho, se põe a pensar porque andam tão apressados. Quase não se olham, mal se cumprimentam. Desperdiçam sentimentos com banalidades.

O que se passa na cabeça desses andantes? Em sua rotina celestial, tudo é tão sereno... não há horários, agendas ou cobranças do chefe. A brancura das nuvens que o distraem. E os passos daqueles apressados lá embaixo. Que vida maluca é essa que levam?

Vivem sempre distantes um do outro, mas quando esbarram com um sentimento chamado paixão, ficam irreconhecíveis. Dizem que a culpa é do amigo Eros, aquele que não larga seu arco e flecha e adora pregar peças com os pobres apressados. E os coitados metem os pés pelas mãos. Fazem loucuras, colocam a vida na mão de outro apressado, que por vezes atropelam seus sentimentos, e não têm tempo para essas bobagens. Sofrem tanto... por vezes, chega a se condoer de alguns.

Não consegue entendê-los. Sentimentos são coisas simples. Mas os apressados complicam tanto... querem tudo para ontem, querem toda a atenção... querem tudo, na verdade. Querem algo em troca por cada migalha que dão. Bobagem... sentimento sente-se e pronto. Estar junto de outro é conseqüência, retribuições não podem ser forçadas. Por que não aprendem isso e param de sofrer? Queria compor uma sonata para explicar-lhes. Pena que não tenham tempo para ouvir sua pequena harpa. Não têm tempo para nada. Pobres apressados...

domingo, 12 de outubro de 2008

Ouvir estrelas

As estrelas me trazem um sentimento de inspiração. Olhar o céu era meu passatempo preferido na infância. E as estrelas, vez ou outra, conversavam comigo e contavam segredos... procuro sempre seguir seus conselhos.



Via Láctea
Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".